VITAMIN-CDE
Mnemônico etiológico para diagnóstico diferencial: Vascular, Infecciosa, Traumática/Tóxica, Autoimune/Alérgica, Metabólica, Iatrogênica/Idiopática, Neoplásica, Congênita, Degenerativa/Depósito, Endócrina/Genética.
Em uma frase
VITAMIN-CDE é o mnemônico etiológico clássico da medicina que organiza o diagnóstico diferencial por categorias de causa — Vascular, Infecciosa, Traumática/Tóxica, Autoimune/Alérgica, Metabólica, Iatrogênica/Idiopática, Neoplásica, Congênita, Degenerativa, Endócrina/Genética (Zabidi-Hussin, 2016). Na Aula 10, o roteiro vira estrutura operacional do prompt diagnóstico: força a IA a varrer sistematicamente as 10 categorias, neutralizando a tendência humana e algorítmica de saltar para hipóteses mais disponíveis (Carneiro MS e Massucatti Neto A, 2026).
A tese — o mnemônico é pedagógico, mas a IA o torna prático
VITAMIN-CDE existe na educação médica há décadas. Sua utilidade pedagógica é clara: força o raciocínio a percorrer as grandes categorias de causa, reduzindo o risco de pular etapas por hábito ou por ancoragem na hipótese inicial.
Mas é trabalhoso percorrê-lo mentalmente em cada caso. Passar pelas dez categorias, confrontando cada uma com o quadro clínico e justificando inclusão ou exclusão, impõe custo cognitivo alto. Poucos médicos, mesmo os bons, mantêm esse rigor de forma sistemática.
A IA torna esse rigor acessível. O que antes exigia meia hora de raciocínio estruturado pode ser feito em dois minutos — desde que o prompt esteja bem construído. A virada está aí.
As 10 categorias
| Letra | Categoria | Descrição / exemplos típicos |
|---|---|---|
| V | Vascular | Trombose, embolia, hemorragia, isquemia, vasculite, malformação vascular, aneurisma. Inclui quadros hematológicos por extensão |
| I | Infecciosa | Bacterianas, virais, fúngicas, parasitárias, micobacterianas, priônicas |
| T | Traumática ou Tóxica | Trauma físico/mecânico; drogas e medicações; exposições ambientais tóxicas; intoxicações exógenas; radiação |
| A | Autoimune ou Alérgica | Autoimunes órgão-específicas e sistêmicas; reações de hipersensibilidade; anafilaxia |
| M | Metabólica | Distúrbios eletrolíticos, acidobásicos, glicêmicos, lipídicos; encefalopatias metabólicas; insuficiências orgânicas com repercussão sistêmica |
| I | Iatrogênica ou Idiopática | Complicações de procedimentos; efeitos adversos de medicações; síndromes sem causa conhecida; idiopáticas mesmo após investigação |
| N | Neoplásica | Tumores sólidos; neoplasias hematológicas; primárias e metastáticas; síndromes paraneoplásicas |
| C | Congênita | Malformações estruturais; defeitos de desenvolvimento; síndromes congênitas |
| D | Degenerativa ou de Depósito | Neurodegenerativas; amiloidoses; depósito lisossomal; degenerações articulares |
| E | Endócrina ou Genética | Distúrbios hormonais; doenças hereditárias; erros inatos do metabolismo |
Por que 10 categorias e não 7
O mnemônico clássico de 7 letras (VITAMIN) cobre as causas mais comuns. As 3 letras adicionais (CDE) foram propostas por Zabidi-Hussin (2016) na revista Advances in Medical Education and Practice para incluir explicitamente categorias frequentemente esquecidas:
- C (Congênita) — particularmente relevante em pediatria e em adultos jovens; quadros raros aparecendo tardiamente.
- D (Degenerativa/Depósito) — relevante em geriatria e em doenças sistêmicas de longa evolução.
- E (Endócrina/Genética) — fronteira em expansão com a medicina de precisão.
Versões mais ampliadas existem (VITAMINSABCDEK — adiciona Social, Behavioral, Allergic, etc.), mas VITAMIN-CDE é o ponto de equilíbrio entre completude e aplicabilidade prática.
Como usar no prompt diagnóstico
O Prompt 1 da Aula 10 é a aplicação operacional direta. Estrutura do pedido à IA:
"Organize o diagnóstico diferencial percorrendo sistematicamente as dez categorias do roteiro VITAMIN-CDE. Para cada categoria, informe:
- Se a categoria é considerada, excluída ou improvável no caso.
- Qual hipótese específica dentro da categoria é mais compatível, se aplicável.
- Que evidência do quadro sustenta ou afasta a hipótese.
- Que exame ou dado adicional ajudaria a confirmar ou excluir.
Ao final, liste as três hipóteses mais prováveis classificadas por probabilidade, e as duas que não podem ser perdidas por gravidade."
As vantagens do prompt VITAMIN-CDE estruturado
| Vantagem | Como o roteiro produz |
|---|---|
| Neutraliza ancoragem | Forçar a IA a percorrer todas as 10 categorias impede salto direto à hipótese mais disponível |
| Reduz respostas vagas | Exigir justificativa de inclusão ou exclusão por categoria elimina "parece improvável" |
| Incorpora os 2 eixos do raciocínio | Separar probabilidade de gravidade ao final é literalmente o que o médico maduro faz |
| Sinaliza limitações | A solicitação explícita obriga a IA a indicar onde a análise é frágil |
Adaptações por especialidade
A Aula 10 traz 4 prompts que adaptam o roteiro:
| Prompt | Quando usar | Ponto de partida |
|---|---|---|
| Prompt 1 — Geral | Qualquer quadro clínico | Queixa principal |
| Prompt 2 — Ultrassonográfico | Casos com achado de US como eixo | Achado ultrassonográfico |
| Prompt 3 — Ambulatorial baixa gravidade aparente | Casos "simples" que pedem proteção contra ancoragem | Hipótese inicial + tipo de consenso |
| Prompt 4 — Refutação no momento do retorno | Paciente volta sem melhora | Diagnóstico que falhou + sinais de alerta |
O roteiro VITAMIN-CDE é chamado em todos os 4. Em cada um, organiza a parte mais densa da resposta — o leque de hipóteses alternativas.
A regra de ouro do prompt VITAMIN-CDE
| Regra | Por quê |
|---|---|
| Não copiar — adaptar | Cada caso real exige ajuste; estrutura é esqueleto, caso é a carne |
| Não omitir dados mandatórios | Sem idade, sexo, naturalidade, procedência, profissão, h. familiar e exposições, a IA chuta com estatística global |
| Ler com olho crítico | A resposta é insumo, não conclusão. Identificar hipóteses ignoradas e sugestões inviáveis no contexto |
Limites do mnemônico
Mesmo bem aplicado, VITAMIN-CDE tem limites estruturais:
- Não capta o feeling clínico (domínio 2 da limitação estrutural da IA).
- Não substitui semiologia do corpo (domínio 1).
- Pode reforçar viés de centro de excelência (domínio 4) — a IA sugere hipóteses raras de centro quaternário se o prompt não tiver contexto local.
O roteiro é ferramenta de varredura, não diagnóstico. O Médico Curador continua sendo quem filtra, valida e decide.
Conexões
- Aula 10 — apostila onde o roteiro é apresentado (Seção 5.1).
- Dados mandatórios — pré-requisito.
- Taxonomia de consenso — outra pré-condição.
- Momento do retorno — uso especial em refutação.
- Protocolo PCTR — estrutura geral do prompt.
- Engenharia de prompts — disciplina ampla.
- Médico Curador — perfil que opera o roteiro.
- IA como método propedêutico — enquadramento conceitual.
- Quatro domínios da limitação da IA — fronteiras do que o roteiro NÃO resolve.
- IA pseudomédica — natureza estrutural a respeitar.
- GIGO — princípio operacional.
- Checklist para prompts — material complementar.
Referências canônicas
- Zabidi-Hussin ZA. Practical way of creating differential diagnoses through an expanded VITAMINSABCDEK mnemonic. Adv Med Educ Pract. 2016;7:247–8.
- Leeds FS, Atwa KM, Cook AM, Conway KA, Crawford TN. Teaching heuristics and mnemonics to improve generation of differential diagnoses. Med Educ Online. 2020;25(1):1742967.
- Sengupta MP, Crawford TN, Leeds FS. "The Heart is a House": A Heuristic for Generating Cardiac Differential Diagnoses. J Med Educ Curric Dev. 2021;8:23821205211035235.